segunda-feira, 6 de abril de 2015

E AS MULHERES EM MANOEL DE OLIVEIRA ?



A pergunta apareceu na SIC Notícias, a jornalista Ana Lourenço perguntou a João Mário Grilo sobre as mulheres na obra de Manoel de Oliveira. A resposta foi breve, recordo o tom muito calmo, a apontar para a dignidade sempre presente, mas acrescentou que era a condição humana o centro do trabalho de Manoel de Oliveira. (A propósito, a nosso ver, que bela conversa).  E num turbilhão,  mistura das figuras dos filmes vistos com as obras que lhe estiveram na origem, e com o muito que se escreveu nestes dias pela morte de Manoel de Oliveira, mulheres reais ou de ficção vêm-nos  à ideia. Desde logo, a sua mulher a Dona Isabel; Agustina Bessa-Luís autora cuja obra serviu de base a filmes seus; as mulheres no «Douro, Faina Fluvial»; as atrizes escolhidas - Catherine Deneuve, Isabel Ruth, Irene Papas, ... ; a Ema do «Vale Abraão»; as figuras femininas do «Benilde ou a Virgem-Mãe»; ...
Adensemos, recorrendo ao tanto que está disponível na internet, do episódio quotidiano a sinopses.  
De início olhar para a longa lista de filmes que podemos começar a ver e  a rever, e esta a melhor forma de cuidar o futuro de Manoel de Oliveira.
Depois, contado por Lima Duarte: «Assim que chegamos no hotel, ele me chamou 'Oh, brazuca não vamos subir agora', ele me chamava de brazuca, 'Vamos pedir que o pianista toque uma música'. Na recepção do hotel tinha um pianista. Ele foi lá e pediu para ele tocar uma valsa do [Johann] Strauss, e por sorte o pianista sabia tocar a peça. Ele pegou sua esposa pelo braço e começou a valsar no hall do hotel. Eu fiquei ali absorto olhando aquele homem extraordinário, um senhor de mais de 90 anos, que mesmo depois de um dia exaustivo de filmagens, tinha disposição para dançar com a esposa como se nada mais existisse além deles e daquela maravilhosa valsa de Strauss. Talvez seja um dos momentos mais bonitos que guardei ao lado desse homem de notório saber e de gestos tão simples"».
E recordemos a «Ema»: «Vale Abraão é a história de Ema, uma mulher de uma beleza ameaçadora. Para Carlos, o marido com quem casou sem amor, "um rosto como o seu pode justificar a vida de um homem". O seu gosto pelo luxo, as ilusões que tem na vida, o desejo que inspira aos homens, fazem-lhe valer o epíteto de "A Bovarinha". Conhecerá três amantes, mas esses amores sucessivos não conseguem suster um sentimento crescente de desilusão que a leva a definir-se como nada mais que "um estado de alma em balouço". Ema morrerá - "acidentalmente? Quem sabe?" - num dia de sol radioso, depois de se ter vestido como se fosse para ir a um baile».
E, ainda, por exemplo,  o «Benilde ou a Virgem Mãe»: «No Alentejo, numa grande casa isolada, suspeita-se que a filha dos proprietários, Benilde, está grávida. O médico, chamado em segredo pela governanta, Genoveva, confirma o seu estado de gravidez. Mas Benilde jura que não conheceu homem algum, e que se está à espera de um filho é por vontade de um Anjo de Deus.
Um vagabundo circunda a casa, com uivos tremendos, sem nunca ser visto. A convicção de Benilde da intervenção divina, perturba todos à sua volta, particularmente a sua tia que procura explicações mais razoáveis. Benilde anuncia a Eduardo, seu noivo, destruído pelos factos, que vai morrer em breve. Na hora da morte diz-lhe que em breve se encontrarão».
E lemos isto  (destaque nosso):  «Fazendo jus à vitalidade e à capacidade de trabalho, que desafiam os seus 104 anos, Manoel de Oliveira revelou ainda que já concluiu o argumento para um outro filme centrado nas mulheres que fazem as vindimas, ainda que esta prática tenha já sido retratada anteriormente pelo autor. "Este projeto, sobre as vindimas, é o resultado de uma declaração feita por uma atriz italiana. Ela disse que o próximo filme que eu faria seria sobre as vindimas. Não contava fazer esse filme, mas tomei a decisão de responder à sua vontade». 
Terminemos assim:
(Dona Isabel, a mulher, que entretanto
 apareceu: A criatividade que tu tens
 é que te põe bem-disposto, porque quando 
não estás a trabalhar, és insuportável)


Será Manoel de Oliveira o exemplo de envelhecimento ativo? Está para além disso. Porque, como muitas pessoas dizem,  é único

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