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segunda-feira, 23 de setembro de 2019
segunda-feira, 13 de maio de 2019
O LIVRO QUE LEVOU NATÁLIA AO TRIBUNAL | «Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica»
«Depois de ver sucessivos livros seus apreendidos pela Censura do Estado Novo, Natália Correia aceitou o convite do visionário editor da Afrodite, Fernando Ribeiro de Mello, para organizar esta Antologia de Poesia Portuguesa Erótica e Satírica. «Finalmente num único livro», prometia a cinta que acompanhava o volume, publicado em dezembro de 1965, «a poesia maldita dos nossos poetas», «as cantigas medievais em linguagem atualizada», «dezenas de inéditos» e «a revelação do erotismo de Fernando Pessoa». A obra causou escândalo e foi apreendida pela PIDE, com vários dos intervenientes julgados e condenados em Tribunal Plenário, num processo que se arrastou durante anos. É agora republicada pela primeira vez com as ilustrações originais de Cruzeiro Seixas, incluindo também novos textos introdutórios e reproduções de documentos que contextualizam um marco histórico na edição em Portugal». +.
________________
Sobre a obra, no Semanário EXPRESSO /Revista E desta semana o trabalho de José Mário Silva «O livro que levou Natália ao tribunal». Pode ser lido aqui. Começa assim:
«Uns meses antes, a recém-criada Afrodite, de Fernando Ribeiro de Mello (um portuense de 23 anos que chegara a Lisboa com fama de excêntrico diseur de poesia), lançara a primeira de muitas pedradas no charco do mundo literário português: uma edição do “Kama Sutra”, logo proibida. Enquanto gesto provocatório, funcionou às mil maravilhas. Mas foi com o livro seguinte, lançado em vésperas do Natal de 1965, que a Afrodite testou verdadeiramente a rigidez do establishment e o funcionamento da Censura. Natália Correia, que já vira os seus livros de poesia e teatro proibidos, organizou uma monumental “Antologia da Poesia Portuguesa Erótica e Satírica — Dos Cancioneiros Medievais à Actualidade”, com 552 páginas, abrangendo sete séculos e meio de versos do mais puro vernáculo. Das cantigas de escárnio e maldizer aos experimentalismos de E. M. de Melo e Castro, passando por Nicolau Tolentino, Bocage, Guerra Junqueiro, vários anónimos, Mário Cesariny, Jorge de Sena, Herberto Helder ou a própria Natália, cabia tudo. Na cinta promocional, não se fazia a coisa por menos: “Finalmente num único livro: a poesia maldita dos nossos poetas; as cantigas satíricas medievais em linguagem atualizada; dezenas de inéditos; a revelação do erotismo em Fernando Pessoa”. (...)»
sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018
GASTÃO CRUZ | «Existência»
SOBRE O LIVRO
«No seu novo livro de poesia Gastão Cruz convida-nos para uma poderosa reflexão sobre a vida, a memória, o envelhecimento e o espectro da morte». Saiba mais.
sexta-feira, 12 de janeiro de 2018
segunda-feira, 4 de dezembro de 2017
«ASSIM PERCEBEMOS MELHOR»
«O poema "Menina dos Olhos Tristes" de Reinaldo Ferreira, musicado por José Afonso, abriu o discurso do ministro da Defesa na cerimónia do 1.º de Dezembro. Azeredo Lopes recordou os soldados portugueses que garantem a defesa do país.
"Menina dos olhos tristes / porque estás a chorar / o soldadinho não volta / do outro lado do mar. Assim percebemos melhor aqueles que enfrentam o perigo em Bangiui ou em Bocaranga, na República Centro Africana. Estão a garantir a nossa defesa. Ou no Mali, a bordo de um C-130. Ou perto de Bamako, onde perdeu a vida, já em junho deste ano, o sargento-chefe Benido. Ou, antes, na Bósnia, no Líbano ou no Mediterrâneo, ou na Lituânia. Ou, dentro em breve no Afeganistão. Ou, em Bensmayah, no Iraque", lembrou.(...)». Leia na integra,
É a força da Cultura e das artes !
segunda-feira, 31 de julho de 2017
ANTÓNIO REIS | «poemas quotidianos»
SINOPSE
POEMAS QUOTIDIANOS, O LIVRO DO POETA E CINEASTA ANTÓNIO REIS
ESGOTADO HÁ DÉCADAS, É O NOVO VOLUME DA COLECÇÃO DE POESIA
DE PEDRO MEXIA.
«O Portugal dos anos 50 e da transição para a década seguinte é um país em que amplos
sectores da população vivem no limiar da pobreza ou numa apertada mediania. É essa a
realidade que, em larga medida, se espelha nos poemas elípticos de António Reis, alheios
à ênfase retórica e ao tom protestário da lírica de alguns dos seus contemporâneos, e que,
antes, atentam nos pequenos nadas do quotidiano, na banalidade de um dia-a-dia de
limitados horizontes. Os textos falam de gente que passaja, vira, ou tinge a roupa, ou a
deixa, depois de lavar, a enxugar de noite, para a vestir de novo de manhã quando vai
para o trabalho.
Tudo isto numa linguagem simples, de ‘poucas palavras’, como um cineasta seu amigo,
um dia, dele disse, uma simplicidade construída, acrescente-se, e em que
se conta com a cooperação do leitor para completar ou preencher o que apenas
![]() |
| Pg. 24 |
terça-feira, 26 de abril de 2016
MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO | No centenário da sua morte | «A INEGUALÁVEL»
A Inegualável
Ai, como eu te queria toda de violetas
E flébil de setim...
Teus dedos longos, de marfim,
Que os sombreassem joias pretas...
E tão febril e delicada
Que não podesses dar um passo -
Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de côr no regaço...
Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas -
Sonolenta,
Ruiva de éteres e morfinas...
Ah! que as tuas nostalgias fôssem guisos de prata -
Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim -
Os teus espasmos, de sêda...
- Água fria e clara numa noite azul,
Água, devia ser o teu amor por mim...
Mário de Sá-Carneiro, in «Indícios de Oiro»
Teus dedos longos, de marfim,
Que os sombreassem joias pretas...
E tão febril e delicada
Que não podesses dar um passo -
Sonhando estrelas, transtornada,
Com estampas de côr no regaço...
Queria-te nua e friorenta,
Aconchegando-te em zibelinas -
Sonolenta,
Ruiva de éteres e morfinas...
Ah! que as tuas nostalgias fôssem guisos de prata -
Teus frenesis, lantejoulas;
E os ócios em que estiolas,
Luar que se desbarata...
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Teus beijos, queria-os de tule,
Transparecendo carmim -
Os teus espasmos, de sêda...
- Água fria e clara numa noite azul,
Água, devia ser o teu amor por mim...
Mário de Sá-Carneiro, in «Indícios de Oiro»
segunda-feira, 4 de janeiro de 2016
CARLOS DRUMOND DE ANDRADE | «Receita de Ano Novo»
RECEITA DE ANO NOVO
Para você ganhar belíssimo Ano Novo
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
cor do arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação com todo o tempo já vivido
(mal vivido talvez ou sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser;
novo
até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo, espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?
passa telegramas?)
Não precisa
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
fazer lista de boas intenções
para arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto de esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um Ano Novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.
quarta-feira, 30 de setembro de 2015
OUTRA VEZ RUY BELO | «Há o mar há a mulher» | NA DESPEDIDA DE SETEMBRO
Uma forma de me despedir
Há o mar há a mulher quer um quer outro me chegam em acessíveis baías abertas talvez no adro amplo das tardes dos domingos Oiço chamar mas não de uma forma qualquer chamar mas de uma certa maneira talvez um apelo ou uma presença ou um sofrimento Ora eu que no fundo apesar das muitas palavras vindas nas muitas páginas dos dicionários bem vistas as coisas disponho somente de duas palavras desde a primeira manhã do mundo para nomear só duas coisas apenas preciso de as atribuir Não sei se gosto mais do mar se gosto mais da mulher Sei que gosto do mar sei que gosto da mulher e quando digo o mar a mulher não digo mar ou mulher só por dizer Ao dizer o mar a mulher há penso eu um certo tom na minha voz sinto um certo travo na boca que mostram que mais do que palavras usadas para falar dizer como eu digo a mulher o mar mar mulher assim ditos são uma maneira talvez de gostar e a consciência de que se gosta e um prazer em o dizer um gosto afinal em gostar Enfim o mar a mulher pode num dos casos ser a/mar a mulher mera forma talvez de uniformizar o artigo definido do singular Há ondas no mar o mar rebenta em ondas espraiadas nos compridos cabelos da mulher que ela faz ondular melhor de tarde em tarde no mês de setembro nas marés vivas O melhor da mulher talvez o olhar é para mim o mar da mulher e à mulher que um só dia encontro na vida de passagem um simples momento num sítio qualquer talvez a muitos quilómetros do mar mas mulher que não mais consigo esquecer mesmo imerso na dor ou submerso em cuidados a essa mulher qualquer eu chamo mulher do mar Nos fins de setembro quando eu partir de uma cidade seja ela qual for quando eu pressentir que alguém morre que alguma coisa fica para sempre nos dias e ou nuns olhos ou numa água num pouco de água ou em muita água onda do mar lágrima ou brilho do olhar eu recear seriamente vir-me a submergir direi alto ou baixo conforme puder com a boca toda ou já a custar-me a engolir as palavras mar ou mulher com certo vagar e cada vez mais devagar mulher mar depois quase já só a pensar o mar a mulher Não sei mas será talvez mais que outra coisa qualquer uma forma de me despedir |
Ruy Belo, Toda a Terra
quarta-feira, 23 de setembro de 2015
RUY BELO | «Canto de Outono»
Ruy Belo – Canto de Outono
Os rouxinóis inexoráveis da primavera
trazidos até nós por certa curta carta
em que canto da noite cantarão agora
que já os frágeis frios vindimam?
em que canto da noite cantarão agora
que já os frágeis frios vindimam?
E os lilases crudelíssimos de junho
inalteráveis como o céu das férias grandes
talvez desdobradas sobre a adolescência
de que nos valerão perante a insinuante música do outono?
inalteráveis como o céu das férias grandes
talvez desdobradas sobre a adolescência
de que nos valerão perante a insinuante música do outono?
E a mãe que o filho suga a ruga
que mãos estenderá sobre estes rostos
onde poisaram patas implacáveis dias?
que mãos estenderá sobre estes rostos
onde poisaram patas implacáveis dias?
E quando o vento verga os choupos do princípio
e despe os ramos dos plátanos familiares
faltará muito que nos cubram provisioriamente
as folhas fatigadas das desoladas árvores?
e despe os ramos dos plátanos familiares
faltará muito que nos cubram provisioriamente
as folhas fatigadas das desoladas árvores?
Já sobe a nossos pés o cedro do silêncio
Promete-nos o sol que sobre os nosso rostos
hão-de na primavera ondular os trigos.
Promete-nos o sol que sobre os nosso rostos
hão-de na primavera ondular os trigos.
BELO, Ruy, Antologia Poética
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
EUGÉNIO DE ANDRADE | «Pequena Elegia de Setembro»
Pequena Elegia de Setembro
Não sei como vieste,
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
Dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
mas deve haver um caminho
para regressar da morte.
Estás sentada no jardim,
as mãos no regaço cheias de doçura,
os olhos pousados nas últimas rosas
dos grandes e calmos dias de setembro.
Que música escutas tão atentamente
que não dás por mim?
Que bosque, ou rio, ou mar?
Ou é dentro de ti
que tudo canta ainda?
Queria falar contigo,
Dizer-te apenas que estou aqui,
mas tenho medo,
medo que toda a música cesse
e tu não possas mais olhar as rosas.
Medo de quebrar o fio
com que teces os dias sem memória.
Com que palavras
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
Eugénio de Andrade, in 'Antologia Poética'
ou beijos ou lágrimas
se acordam os mortos sem os ferir,
sem os trazer a esta espuma negra
onde corpos e corpos se repetem,
parcimoniosamente, no meio de sombras?
Deixa-te estar assim,
ó cheia de doçura,
sentada, olhando as rosas,
e tão alheia
que nem dás por mim.
Eugénio de Andrade, in 'Antologia Poética'
terça-feira, 11 de agosto de 2015
«por um dia de verão exemplar»
Bicicleta
Lá vai a bicicleta do poeta em direcção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –
lá vai o poeta em direcção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.
O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e desaparece
uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e desaparece
uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.
De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.
O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.
Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
O poeta dá à pata como os outros animais.
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direcção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
O poeta dá à pata como os outros animais.
Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direcção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.
Herberto Hélder (1930
sábado, 25 de abril de 2015
NO 25ABRIL 2015 | «Catarina Eufémia» | SOPHIA DE MELLO BREYNER ANDERSON
CATARINA EUFÉMIA Sophia de Mello Breyner Anderson O primeiro tema da reflexão grega é a justiça E eu penso nesse instante em que ficaste exposta Estavas grávida porém não recuaste Porque a tua lição é esta: fazer frente Pois não deste homem por ti E não ficaste em casa a cozinhar intrigas Segundo o antiquíssimo método obíquo das mulheres Nem usaste de manobra ou de calúnia E não serviste apenas para chorar os mortos Tinha chegado o tempo Em que era preciso que alguém não recuasse E a terra bebeu um sangue duas vezes puro Porque eras a mulher e não somente a fêmea Eras a inocência frontal que não recua Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste E a busca da justiça continua |
quarta-feira, 25 de março de 2015
HERBERTO HELDER | «Há cidades cor de pérola onde as mulheres»
HÁ CIDADES COR DE PÉROLA ONDE AS MULHERES
Há cidades cor de pérola onde as mulheres
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.
existem velozmente. Onde
às vezes param, e são morosas
por dentro. Há cidades absolutas,
trabalhadas interiormente pelo pensamento
das mulheres.
Lugares límpidos e depois nocturnos,
vistos ao alto como um fogo antigo,
ou como um fogo juvenil.
Vistos fixamente abaixados nas águas
celestes.
Há lugares de um esplendor virgem,
com mulheres puras cujas mãos
estremecem. Mulheres que imaginam
num supremo silêncio, elevando-se
sobre as pancadas da minha arte interior.
Há cidades esquecidas pelas semanas fora.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
A minha loucura, escada
sobre escada.
Emoções onde vivo sem orelhas
nem dedos. Onde consumo
uma amizade bárbara. Um amor
levitante. Zona
que se refere aos meus dons desconhecidos.
Há fervorosas e leves cidades sob os arcos
pensadores. Para que algumas mulheres
sejam cândidas. Para que alguém
bata em mim no alto da noite e me diga
o terror de semanas desaparecidas.
Eu durmo no ar dessas cidades femininas
cujos espinhos e sangues me inspiram
o fundo da vida.
Nelas queimo o mês que me pertence.
A minha loucura, escada
sobre escada.
Mulheres que eu amo com um desespero
fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.
Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.
fulminante, a quem beijo os pés
supostos entre pensamento e movimento.
Cujo nome belo e sufocante digo com terror,
com alegria. Em que toco levemente
a boca brutal.
Há mulheres que colocam cidades doces
e formidáveis no espaço, dentro
de ténues pérolas.
Que racham a luz de alto a baixo
e criam uma insondável ilusão.
Dentro de minha idade, desde
a treva, de crime em crime - espero
a felicidade de loucas delicadas
mulheres.
Uma cidade voltada para dentro
do génio, aberta como uma boca
em cima do som.
Com estrelas secas.
Parada.
Subo as mulheres aos degraus.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.
Seus pedregulhos perante Deus.
É a vida futura tocando o sangue
de um amargo delírio.
Olho de cima a beleza genial
de sua cabeça
ardente: - E as altas cidades desenvolvem-se
no meu pensamento quente.
Herberto Helder
in «Lugar», Poesia Toda,
Assírio & Alvim,1979
.
. .
Herberto Helder morreu, vem na comunicação social. Por exemplo, no jornal Expresso:
A morte ganhou o mestre. Morreu Herberto Helder
O maior poeta português vivo deixou a vida na manhã de ontem, mas a sua obra permanecerá. O seu último livro, "A Morte Sem Mestre", foi publicado no ano passado. Distinguido em 1994 com o Prémio Pessoa, recusou recebê-lo. "Não digam a ninguém e deem o prémio a outro", pediu ao júri. Continue a ler.
sexta-feira, 6 de março de 2015
sábado, 30 de agosto de 2014
ADÉLIA PRADO |Com licença poética |«Mulher é desdobrável. Eu sou.»
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
PRADO, A. Bagagem. São Paulo
terça-feira, 12 de agosto de 2014
MANUEL BANDEIRA | Mulheres
Mulheres
Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido…
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.
E as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.
Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! Fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas…
És linda como uma história da carochinha…
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau)
Manuel Bandeira
sexta-feira, 1 de agosto de 2014
AGOSTO | Verão Eterno
Começa hoje o «Querido mês de agosto», tempo para enaltecer o verão. Continuaremos por aqui, pelo Em Cada Rosto Igualdade, em ritmo de férias. Visite-nos, para nós é um privilégio. Iniciemos com arte. Com poesia.
VARIAÇÕES SOBRE UM DIA DE VERÃO
Acariciar o verão
saber dele
O peso de alegria
Que suporta a mão.
Caminhar na luz
Quase como se
Estivesses em casa.
Ela vem de longe
Esta bebedeira
Que tem por dever
Abrir as fronteiras.
EUGÈNE GUILLEVIC (1907-1997)
Tradução de Eugénio de Andrade
terça-feira, 22 de julho de 2014
LUIS MIGUEL CINTRA |Poesia de autores e autoras portuguesas | Na Pastoral da Cultura
Em 2013, no Dia das Mães, fizemos este post. Voltemos ao
«E AS MÃES SÃO CADA VEZ MAIS BELAS», bem como
a demais poesia, no site da Pastoral da Cultura.
Em particular, através da voz de Luís Miguel Cintra: Vitorino Nemésio, Ruy Cinatti, Jorge de Sena, Sophia de Mello Breyner Andresen, Fernando Echevarría, José Bento, Ruy Belo, Cristovam Pavia, Pedro Tamen, Adília Lopes.
Para já, novamente, Herberto Helder:
No sorriso louco das mães batem as leves
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
gotas de chuva. Nas amadas
caras loucas batem e batem
os dedos amarelos das candeias.
Que balouçam. Que são puras.
Gotas e candeias puras. E as mães
aproximam-se soprando os dedos frios.
Seu corpo move-se
pelo meio dos ossos filiais, pelos tendões
e órgãos mergulhados,
e as calmas mães intrínsecas sentam-se
nas cabeças filiais.
Sentam-se, e estão ali num silêncio demorado e apressado,
vendo tudo,
e queimando as imagens, alimentando as imagens,
enquanto o amor é cada vez mais forte.
E bate-lhes nas caras, o amor leve.
O amor feroz.
E as mães são cada vez mais belas.
Pensam os filhos que elas levitam.
Flores violentas batem nas suas pálpebras.
Elas respiram ao alto e em baixo. São
silenciosas.
E a sua cara está no meio das gotas particulares
da chuva,
em volta das candeias. No contínuo
escorrer dos filhos.
As mães são as mais altas coisas
que os filhos criam, porque se colocam
na combustão dos filhos, porque
os filhos estão como invasores dentes-de-leão
no terreno das mães.
E as mães são poços de petróleo nas palavras dos filhos,
e atiram-se, através deles, como jactos
para fora da terra.
E os filhos mergulham em escafandros no interior
de muitas águas,
e trazem as mães como polvos embrulhados nas mãos
e na agudeza de toda a sua vida.
E o filho senta-se com a sua mãe à cabeceira da mesa,
e através dele a mãe mexe aqui e ali,
nas chávenas e nos garfos.
E através da mãe o filho pensa
que nenhuma morte é possível e as águas
estão ligadas entre si
por meio da mão dele que toca a cara louca
da mãe que toca a mão pressentida do filho.
E por dentro do amor, até somente ser possível
amar tudo,
e ser possível tudo ser reencontrado por dentro do amor.
Herberto Helder
Imagem: Pablo Picasso
segunda-feira, 25 de março de 2013
SESSÃO DE POESIA COM ESCRITORAS PORTUGUESAS

Capela do Rato acolhe sessão de poesia
com escritoras portuguesas
Capela do Rato | 21h30 | segunda-feira | DIA 25
Participação
Alice Vieira | Carla Chambel |Carminho |Clea Almeida |
Filipa Leal | Leonor Xavier | Maria Barroso |
M. do Rosário Pedreira | Maria Teresa Horta |
Suzana Borges | Teolinda Gersão | Xinha Nery
Capela do Rato - Cç. Bento da Rocha Cabral, 1
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